"The serpent is crawling inside of your ear."
"Como seria se soubéssemos que flutuamos no perpétuo acaso do Cosmos?"
Fui fazer uma nova Carteira de Identidade em um desses locais que congregam uma série de serviços públicos. Geralmente são lugares agitados, com pessoas entrando e saindo o tempo todo, sozinhas ou acompanhadas. Não suporto lugares lotados e agitados que não sejam divertidos.
Aguardava minha vez sentado em um banco de madeira. Portava minha senha, composta de uma letra e um número de três dígitos. A cada sinal sonoro olhava para o anunciado no painel digital pendurado no teto: “P370”, ”A014”, ”D101”... Como em um bingo, meu número poderia sair a qualquer momento. Aquilo me irritava. A pessoa ao meu lado dirigiu-se a mim.
- Hoje tá demorado mesmo moço, hoje tem muita gente! Tem dia que é mais rápido!
Sentada ao meu lado estava uma senhora de rosto redondo, aparentando estar na meia idade. Respondi com resignação.
- É mesmo? Mas, fazer o quê? Temos que ter paciência.
- Verdade! - ela concordou, e continuou a falar apesar de eu não perguntar nada ou demonstrar qualquer interesse.
- Tenho que tirar RG novo e Atestado de Antecedentes. Vou ficar aqui o dia todo. Mas não tem problema não. Tirei o dia para resolver tudo isso. Se der tempo, ainda vou fazer umas comprinhas.
Tinha uma expressão alegre, bonachona, e voz agradável. Lembrava-me a merendeira que servia a merenda na minha escola primária. Eu achava que ela, a merendeira, não gostava de mim, pois minhas porções nunca eram generosas. Na verdade, descobri mais tarde, ela servia menos para os mais gordinhos, por ordem da nutricionista da escola.
Ela queria puxar conversa para passar o tempo. Disse-lhe meu nome e estendi-lhe a mão, cordial e educadamente. Ela me cumprimentou e disse o seu.
– Francisca Maria Zilda do Nascimento.
Houve um instante de silêncio, com cada um procurando um assunto para continuar com a conversa. Ela falou primeiro.
- Olha só quanta gente vem aqui, todo dia. Todo mundo correndo atrás de algum documento. A gente tem que ter documento e número para tudo. Número do RG para a identidade, do CPF para o imposto de renda - que pobre nem paga, mas tem o trabalho de declarar isento, senão dá dor de cabeça -, da Carteira Profissional para poder trabalhar – para quem consegue trabalhar com carteira -, do PIS para receber os rendimentos e do Título de Eleitor para votar. Era mais fácil ter um documento e um número só prá tudo!
Terminou o pequeno discurso sobre o problema que ela imaginava comum a todos e ficou aguardando que eu concordasse com sua afirmação.
Poderia ter respondido que isso seria muito perigoso. Dependendo dos interesses que estivessem no poder, aqui ou no mundo civilizado, poderíamos acabar cada um com um número tatuado no corpo, em algum lugar visível ou não. Preferi apenas concordar.
– É verdade!
Procurei por um gancho que nos levasse para outro assunto, e vi que ela usava uma medalha no peito, presa em um fino cordão dourado. Era a imagem de uma santa.
- Mudando de assunto, se a senhora me permite, qual é a santa na sua medalha?
- É Santa Clara!
Ficou feliz em responder, e curiosa pela minha pergunta.
– O senhor conhece os santos? É religioso?
- Mais ou menos! – menti. - Mas não conheço nada de santos. Só sei um pouco de Nossa Sra. Aparecida, Santo Antonio e São Judas Tadeu.
Foram os com os nomes que me ocorreram.
Ela respirou longamente como um nadador aguardando o tiro de partida, e, solícita como a professora de catecismo atendendo ao aluno interessado, discorreu sobre o assunto.
- Santa Clara nasceu na cidade de Assis, na Itália, em mil cento e noventa e quatro. Nasceu em berço de ouro, em família rica. Mas não era feliz. Achava que a vida dela era vazia e sem sentido. Um dia conheceu e se tornou amiga de São Francisco de Assis, e passou a se interessar pela mensagem e pelo jeito de viver dos franciscanos. Quando fez dezoito anos, saiu de casa escondido e foi para uma igreja chamada Igrejinha de Santa Maria dos Anjos. Lá, São Francisco cortou os cabelos dela e cobriu a cabeça dela com um véu, dizendo que a partir daquele momento ela era uma Esposa de Cristo.
Eu fingia prestar atenção no que ela dizia enquanto observava os números mostrados pelo painel digital, que chamavam para atendimento os mais sortudos do que eu. A explanação continuava.
- Ela fundou uma ordem que tem um nome difícil de lembrar. Fez caridade e viveu na pobreza até morrer. Ela morreu com 60 anos.
- Que interessante! Realmente, é um exemplo de virtude - acrescentei com um tom de voz solene.
Meu número não aparecia no painel. Odeio bingos! Na primeira e última vez em que participei de um, que dava prêmios para o primeiro e último colocados, tive vontade de jogar todas as pedras no cara que cantava os números. Após premiar o primeiro e eliminar quase todos os participantes, ele pediu que os dois restantes ficassem em pé. No final, fiquei em penúltimo e todos, inclusive o cara que cantava os números, riram da minha cara.
Intervi antes que ela continuasse o assunto; eu não conseguiria manter aquela expressão de interesse por muito tempo. Lembrei-me do começo da nossa conversa.
- A senhora falou que vai tirar Atestado de Antecedentes. Desculpe-me a curiosidade, mas para que a senhora precisa disto?
Minha pergunta a deixou incomodada, mas entendi logo em seguida que seu desconforto devia-se à necessidade do documento, e não à minha curiosidade.
- Preciso tirar o Atestado de Antecedentes para o meu trabalho. Eu sou Gari da Prefeitura. Hoje eu trabalho no centro. Trabalho lá faz uns dez anos. Acontece que fui transferida para trabalhar num bairro chique. E para trabalhar lá a associação de bairro deles exige que a gente apresente o atestado, cópia dos documentos e um comprovante de endereço. E pedem também a escala de serviço com o horário e as ruas de cada um.
- Para que eles pedem tudo isso? - fiquei surpreso.
- Eles têm medo da gente!
Sorrimos com a ironia da sua resposta.
- Acontece que eles dizem que alguns garis trabalham de olheiros para bandidos, que vem depois e roubam as pessoas quando elas saem de carro, ou assaltam as casas. Veja bem o senhor, tanta gente estranha que entra nas casas desses ricos. Eles vivem comprando coisas. Vem gente cuidar do cachorro, do jardim, da piscina. Será que eles pedem documentos para todo mundo?
- Não sei dizer!
- E agora, para a gente que é mais pobre, ficam com essa desconfiança toda. Pode até ser que tem Gari que faça isso. Toda profissão tem suas maças podres, não é verdade?
- Pode ter certeza disso!
Ela iniciou um pequeno desabafo.
- Nunca fiz nada que fosse contra os ensinamentos de Jesus Cristo, pois sou cristã. Eu sou uma mulher sozinha. Criei meu filho sozinha. Hoje nós dois temos nossa casinha e todas nossas coisas, sem precisar prejudicar ninguém.
- O que o seu filho faz?
- Ele é moto boy. Trabalha duro. Sai de casa cedo e volta só no final da noite. Vai direto do trabalho para a faculdade. Quer ser professor de Matemática!
- Muito bom! - sorri um sorriso de aprovação.
Ficamos em silêncio. Vi que ela segurava sua senha.
- Qual o seu número?
- D130. Nossa..., já está chegando! O Sr. me faria o favor de conferir o formulário para mim? Assim eu fico mais tranqüila de que preenchi tudo certinho.
- Claro!
Peguei o formulário das mãos dela. A princípio, estava tudo certo.
- Está tudo preenchido corretamente!
Ela achou que eu havia lido muito rápido. Ficou preocupada.
- Vi que o senhor passou os olhos no formulário, mas não demorou nadinha!
- Eu uso leitura dinâmica. Leio muito rápido, é normal. Pode ficar tranqüila, conferi tudo e está tudo preenchido corretamente.
- O senhor trabalha com quê? - é uma curiosidade natural para muitas pessoas, quando estão conhecendo alguém.
Não gosto dessa pergunta em especial. Invariavelmente dou a mesma resposta, e depois tenho que explicar.
- Trabalho no trabalho mais fácil que existe!
Enquanto ela me olhava com curiosidade, esperando que eu explicasse, o sinal sonoro tocou novamente e o painel digital mostrou meu número: D124!
Disfarcei meu alívio. Despedi-me com um aperto de mão.
- Senhora Francisca, muito prazer em conhecê-la. Obrigado pela conversa. Tudo de bom para a senhora e para seu filho!
Ela sorriu e respondeu com simpatia.
- Para o senhor também!
Levantei-me e fui para o guichê de atendimento. Deixei-a sem saber em que eu trabalhava.
Capítulos já publicados:
God - John Lennon
Roxanne - The Police
Be Quick or Be Dead - Iron Mainden
Jumping Jack Flash - Rolling Stones
Broken Hearted Blues - T. Rex
Running with the Devil - Van Halen
I Shall be released - Bob Dylan
I can't quit you baby - Led Zeppelin
Nativity in Black (N.I.B.) - Black Sabbath
Mother - Pink Floyd
Ready for love - Bad Company
Call me The Breeze - Lynyrd Skynyrd
Traveller in Time - Uriah Heep
Sweet Child of Mine - Guns and Roses
When a Blind Man Cries - Deep Purple
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Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2008
Be quick or be dead
Marcadores: Fragmentos de um romance
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3 leitoras(es) comentaram:
Que maldade.
Ela no mínimo deve pensar até agora que é preciso ter doutorado pra trabalhar no trabalho mais fácil que existe.
Mal imagina que é pra ser vagabundo, rs.
Nessas filas vc sempre encontra esse povo de idade que adora bater papo.
Agora descobri porque a merendeira do meu primário enchia meu prato.
[issamu esteve aqui]
olá!
Seja qual for a parte do mundo o assunto é sempre muito parecido.em situações assim
O melhor trabalho do mundo:)))
É quando se esta a dois, a gozar um bom clima
Beijos e bom fim de semana
Whispers
Ahhhh, não me deixa tal qual a dona Francisca. Fiquei só na curiosidade, agora. Conta! E essa merendeira da escola era gorda? Vai ver ela comia o que deixava de servir pros gordinhos.
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