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domingo, 8 de fevereiro de 2009

A empadinha, por Zé Rola

Segunda Temporada - Nono Capítulo


Meio dia, hora do almoço.
Já estávamos sendo servidos quando chegou aquela figura deprimente do Profeta Celestino, acompanhado do seu capanga, o Dante, vestindo aquele seu casaco sujo e asqueroso. Sentaram-se próximos a nós.
O Profeta não tem se importado muito comigo ultimamente. Meus assessores, Duplo V e Zé Rola, relataram que ele tem desaparecido em algumas tardes. Como também tenho desaparecido com alguma regularidade, me distanciei um pouco dessa dupla de malucos que me servem.
Ôpa! Por que será que o Profeta desaparece?

Começava a pensar nessa questão quando o comportamento do Zé Rola passou daquele seu estado canino e babão, para algo parecido com... rosnar!
Ele está olhando para o Dante, que também está olhando para ele. Parece que vão se pegar a qualquer momento.
Zé Rola começa a mostrar os dentes.
- O que você perdeu aqui que está olhando, idiota? – Dante pergunta-lhe em alto e bom som.
Êpa! Cruzo o olhar com o do Profeta e ele parece estar tão incomodado quanto eu. Ele começa a falar com seu assecla. Faço a mesma coisa com meu assessor.

- Ô Zé Rola! Por favor, se comporte! Veja aqui o Duplo V, quietinho, só observando.
- Duplo V está em transe! – respondeu.
- É verdade! – admiti – Mas, vamos aproveitar para você me contar uma coisa Zé Rola. Pode ser?
Assim que ele se sentiu requisitado, voltou ao comportamento de cachorro dócil.
- Pode dizer!
- Qual a razão dessa animosidade toda com o Dante?

Zé Rola troca o ar canino por uma postura perfeitamente normal, como acontece com freqüência, e começa a contar sua história. Tem que ser rápido, pois sua lucidez não dura muito.
- Antes de você chegar aqui..., uns seis meses antes, eu acho, chegou o Big Boss. Acho que foi aniversário dele e a empresa que o mantém aqui mandou um monte de salgadinhos, docinhos, refrigerantes e um grande bolo.
- Uma festa de aniversário? – também gosto de fazer perguntas óbvias.
- É, uma festa de aniversário! Arrumaram tudo lá no salão de festas. A gente ficou de fora até abrirem a porta. Então, colocaram o Big Boss atrás do bolo, apagaram as luzes para cantarmos os parabéns. Acho que o enfermeiro que estava com ele - era o lerdo do Theodore Roosevelt - deu bobeira e o Big Boss tirou um monte de merda que tinha nos bolsos e jogou no bolo. Você sabe, ele era aquele executivo que só espalhava merda...
- E a festa?

- Então, aí a festa ficou legal. Jogaram o bolo fora e levaram o Big Boss para o quarto. Ficaram só dois enfermeiros cuidando de todo o mundo..., aí já viu...
- O pessoal atacou os salgadinhos?
- Atacou..., coisa de louco. E quem incitou os internos foi o Dante. Queria colocar fogo no circo. Você tinha que ver, parecia uma alcatéia de hienas famintas... Os salgadinhos voavam para todo lado. Eu comi um monte de coxinhas, de esfihas, e bolinho de queijo..., hum... – lambeu os beiços..., quer dizer, lábios; beiço é de cachorro.
- Fizemos guerra de salgado e refrigerante! Alguém jogou na minha cara uma empadinha. Era tão cremosa que meio que se desfez na minha testa. Peguei e comi..., olha, que empadinha gostosa!
- Foi o Dante?
- Não! Eu adorei a empadinha e vi que só tinha mais uma em cima de uma bandeja, sobre uma mesa. Corri até ela e...
- Pegou a empadinha?

- Quando ia pegar, o escroto do Dante agarrou a minha mão e falou que a empada era dele, que não tinha comido nenhuma.
- Eu respondi: “- Azar o seu, panaca, não comeu por que não quis!” . Então ele disse: “- Mas agora eu quero!”, e eu falei “- Vai ficar querendo!”...
- Ok! Já entendi. Mas, quem comeu a empadinha?
- Nenhum dos dois!
- Nenhum dos dois?
- Não..., ambos deixamos a discussão ao mesmo tempo e fomos pegar a empadinha, mas ela não estava mais lá! Alguém já a havia pego.
- E depois?
- Depois ele veio para cima de mim e eu enfiei a mão naquele panaca!
- Vocês brigaram?
- Brigamos feio! Acabamos entrando na cozinha, onde estavam os doces, que ainda estavam intactos, e derrubamos tudo no chão; depois caímos e rolamos sobre os quindins, olhos de sogra, beijinho e tudo o mais.
- Então vocês foram parar na Solitária?
- Fomos...

Não chegou a terminar a frase; subitamente, voltou ao seu comportamento canino.
Pobre rapaz..., e pensar que já foi um promissor gerente de projetos de tecnologia...
De qualquer maneira, essa rixa entre eles já me foi e ainda será muito útil.
Duplo V acorda do seu transe e dá sinal de vida:
- Quem cedo madruga fica com sono o dia inteiro!
- Comam rapazes! – ordenei com delicadeza.
É..., é difícil arrumar bons assessores...


Índice de capítulos
17) A fuga
16) Uma missão para o Profeta
15) Um troféu para o Encoxador
14) Encoxando as Enfermeiras
13) Pastoreando as Ovelhas
12) Encoxando a Beata
11) Encoxaram o Profeta
10) A empadinha, por Dante
09) A empadinha, por Zé Rola
08) A encoxada que cura
07) A fé que salva
06) Ao encontro das ovelhas
05) Na Ala Feminina
04) Um cara atrapalhado
03) Troca Perigosa
02) Big Boss
01) A visão do Profeta

Primeira temporada completa: A caça ao Encoxador Misterioso

1 leitoras(es) comentaram:

Enio Luiz Vedovello disse...

Agora que os leitores sabem a origem da inimizade, que esperem o pior.
Ou não...