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domingo, 12 de abril de 2009

Encoxando a Beata

Segunda temporada – Décimo segundo capítulo

Três horas da tarde.
Às vezes me impressiono com os esforços que fazemos para conseguir o que queremos. Planejamos e executamos planos mirabolantes, corremos riscos, passamos por situações complicadas. Mas, quando o objetivo é alcançado, quando o objeto do desejo está em nossas mãos, tudo terá valido a pena.
É por isso que estou escondido dentro do carro de roupas femininas lavadas e passadas, cheirando à amaciante, estacionado na frente de uma porta de metal cinza escuro, onde se lê em uma placa pendurada: “ALA FEMININA”.
Faço essa viagem semanalmente. Garanto algumas horas de folga das tarefas coletivas executando alguns bicos que consigo junto ao pessoal da administração. Uso essas horas após o término do meu trabalho diário na lavanderia. Assim, ninguém se dá conta do meu sumiço por duas ou três horas.
Sempre deixo meus assessores, Duplo V e Zé Rola, com alguma missão para executar. Como espionar a rotina dos enfermeiros e da clínica como um todo, e vigiar o Profeta Celestino e seu assecla, o asqueroso e ensebado Dante. O Profeta parece ter uma atividade secreta também, e estamos empenhados em descobrir qual é.
Ouço o som de um molho de chaves abrindo a porta do paraíso. E, depois que a porta se abre, duas enfermeiras vem buscar o carrinho cheio de roupas íntimas em que estou, e o outro estacionado ao lado, trazendo roupas de cama.
Hoje, como sempre, falam de algum dos enfermeiros da Ala Masculina. Descobri que ambas estão realizando uma pesquisa de natureza sexual com os enfermeiros. Cada semana uma delas dorme com um deles, e depois, quando estão juntas, comparam desempenhos e anatomias.
Não tenho nada contra qualquer experimento científico, muito pelo contrário. Também sou um pesquisador da natureza humana. Da natureza feminina, para ser exato e, dentro dela, da questão do prazer sexual, especificamente. Em um campo tão vasto e digno de pesquisa, foi nesse que decidi me especializar.
Sou o Encoxador Misterioso, baby, e, se um dia entrevistarem todas as mulheres – realmente - felizes desta cidade, descobrirão que muitas delas se tornaram o que são por terem participado, como dóceis e felizes cobaias, da minha experiência.

Pronto, estamos em movimento. Passamos pela porta..., agora o chacoalhar no piso de tacos, depois a parada para ler o quadro de tarefas, e ver qual será a interna encarregada de guardar as roupas. É um momento de expectativa. Antigamente, livre pelos ônibus da cidade, eu podia escolher a sortuda do dia, que receberia sua dose vitalícia de encantamento. Aqui na clínica, tenho que ficar com o que aparecer. Confesso que, na maioria das vezes, não tenho muita sorte. Ainda não apareceu nenhuma que superasse a Jô Gozô, em qualquer critério.
- Hoje os lençóis serão trocados pela Cidona e pela Julinha. O estoque de roupas de cama fica com a Patricinha..., e a Piedade vai organizar o quarto de roupas.
- Pelo menos no quarto de roupas ela pode cantar e rezar à vontade. Fechada lá dentro, não enche o saco de ninguém!
- Verdade... Mudando de assunto..., você reparou como a Jô Gozô está diferente?
- Claro! Conversando com ela, parece até que está curada!
- É..., mas os médicos estão desconfiados de alguma coisa, querem esperar para ver se descobrem a causa da melhora dela.
Então, Piedade será a sortuda do dia! Pelo que já ouvi a respeito dela, é uma beata que anda pelos corredores rezando, cantando e citando a Bíblia. Bom..., como diria Duplo-V: “- Qualquer coisa é melhor que nada!”.

Uma vez dentro do quarto de roupas, olho cuidadosamente para fora. Não há ninguém. Nenhuma interna chega antes do carrinho chegar. Desço e me escondo sob a mesa, atrás das cortinas de pano branco. Ouço um cântico que fica cada vez mais alto e claro.
- Senhor..., Aleluia Senhor..., Senhor..., Aleluia Senhor..., Aleluia...
Piedade entra e começa a realizar sua tarefa. Fazendo uma avaliação básica..., hum..., até que ela atende às expectativas. Dá para perceber as curvas escondidas por algumas camadas de tecido. Desperdício de um corpo bonito... Está de costas para mim, separando as peças por tipo e número..., hora de atacar!
Que soem as trombetas de Jericó! Ou seriam de Gomorra?
Um toque no joelho..., e ela se manifesta.
- Já vi as tuas abominações, e os teus adultérios, e os teus rinchos, e a enormidade da tua prostituição sobre os outeiros no campo; ai de ti, Jerusalém! Até quando ainda não te purificarás?
Será que estou indo bem? Dou aquele toque mais para cima, mas para dentro da coxa, onde é mais quentinho... Ela respira fundo.
- Disse-lhe ele: Quais? E Jesus disse: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho.
Não querida..., não há pecado em nosso ato. Não furtamos nada, de nós ou de ninguém, não mentimos quando externamos no arrepio dos pelos do corpo a intensidade das nossas sensações; não traímos ou matamos. Se não somos puros, somos ao menos inocentes... Deixe-se levar querida. Você é a Dalila que não cortará os cabelos de Sansão, pois não quer se separar do prazer que ele te dá.
- Quanto ela se glorificou, e em delícias esteve, foi-lhe outro tanto de tormento e pranto; porque diz em seu coração: Estou assentada como rainha, e não sou viúva, e não verei o pranto.
Vamos lá minha querida..., “Crescei e multiplicai” é o princípio de tudo... Deixa eu te pegar..., assim..., isso..., e te levar pelos mistérios da criação, voando entre as nuvens brancas sob um céu divinamente azul.

- O meu amado fala e me diz: Levanta-te, meu amor, formosa minha, e vem.
Já nos entendemos e nos irmanamos em espírito. Agora, vamos irmanar os nossos corpos. Ela se solta, debruça sobre as roupas arrumadas e relaxa; discípula aplicada, em silêncio e de olhos bem abertos, atenta ao meu sermão. E mostro a ela minha interpretação do que é sagrado e do que é profano.
- O meu amado é meu, e eu sou dele; ele apascenta o seu rebanho entre os lírios.
Pronto..., já estamos quase lá..., vamos..., vamos flutuar. Sinta seu espírito deixando o corpo e se expandindo, misturando-se com o ar. Sinta vindo bem de dentro, lá onde o fogo arde incessante - nas profundezas infernais de todos nós -, um frenesi que vai te tomando de mansinho, devagarzinho, e se tornando intenso, intenso, intenso...

- Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu; ele apascenta entre os lírios.
É então chegada a hora quando todos os anjos tocam suas trombetas douradas anunciando do céu a mais nova obra do Senhor na Terra: o entendimento dos mistérios da vida e dos prazeres do corpo, na realização da fé através do amor.
- E a tua boca como o bom vinho para o meu amado, que se bebe suavemente, e faz com que falem os lábios dos que dormem.
Deixo que pouse suavemente sobre as roupas desarrumadas. Ela respira profundamente e ronrona como uma gata largada em seu cesto de dormir.
Identifico o carro cheio de roupas íntimas usadas, que serão levados à lavanderia, e me escondo dentro dele. Ouço-a fazer uma última citação.
- As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam.
Não me importa o que ela quis dizer. Já não tenho mais o que fazer aqui. O carrinho que me levará de volta não é tão agradável quanto o que me trouxe. Paciência... Passo o tempo tentando identificar uma peça que eu já conheça.
Hum..., essa já vi..., essa também... Nossa! Olha o estado dessa!
Ouço um grito abafado, de prazer intenso, vindo de outro lugar. Acho que, ao contrário do que dizem as enfermeiras, a Jô Gozô não está curada.



Índice de capítulos
17) A fuga
16) Uma missão para o Profeta
15) Um troféu para o Encoxador
14) Encoxando as Enfermeiras
13) Pastoreando as Ovelhas
12) Encoxando a Beata
11) Encoxaram o Profeta
10) A empadinha, por Dante
09) A empadinha, por Zé Rola
08) A encoxada que cura
07) A fé que salva
06) Ao encontro das ovelhas
05) Na Ala Feminina
04) Um cara atrapalhado
03) Troca Perigosa
02) Big Boss
01) A visão do Profeta

Primeira temporada completa: A caça ao Encoxador Misterioso

7 leitoras(es) comentaram:

Nadezhda disse...

cada vez que leio vejo que ele nãoperdoa ninguém mesmo ;)

Carla disse...

uiiiii tu és fogo
adorei ler
beijos

CLAUDIA GOULART disse...

Quanta imaginação!!
Você escreve muito bem Toninho!
abraço

Cαmilα ♥ disse...

"- As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam.
Não me importa o que ela quis dizer. Já não tenho mais o que fazer aqui."

Bem a cara do encoxador...
*risos*

Sempre dou gargalhando quando leio Jo Gozo!
kkkk³³³

Mary West disse...

Hahahahahaahahahahaha direto para o inferno depois dessa.

Humana disse...

Também acho que ele vai para o inferno!
Li com curiosidade até ao final.
Beijinhos meu querido amigo.

Enio Luiz Vedovello disse...

Dizem que onde bate, fica...