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domingo, 12 de julho de 2009

O Clã da Aranha de Veludo - Cosplay

Bem vindo à série “O Clã da Aranha de Veludo
Sinopse: “Pessoas cometem crimes em sua procura pelos extremos do prazer. Dois policiais, o Cabo Valdimir (CV) e o Soldado Rubis (SR), conduzem a investigação.”

Você pode iniciar sua leitura por qualquer dos capítulos já publicados. Divirta-se!

Primeiro capítulo: O Clã da Aranha de Veludo – Cosplay
Sinopse: "O cadáver de um corcunda assassinado com uma baioneta da segunda guerra mundial leva CV e SR ao mundo do Cosplay."



O corpo aos pés do Cabo Valdimir (CV) e do Soldado Rubis (SR), mostra explicitamente a causa que o levou a estar ali, morto, estendido na calçada, logo de manhã.
- É uma baioneta CV!
SR ajoelha-se junto ao morto e examina mais de perto a baioneta cravada profundamente em suas costas.
A expressão da vítima, enrijecida e congelada pelo rigor cadavérico, poderia ser descrita como de surpresa e dor.
A de SR é aquela de admiração que fazemos quando nos deparamos com coisas que nos são verdadeiramente belas.
- É uma baioneta de Fuzil Mauser..., peça muito cara. Veja aqui CV, na parte limpa, do lado de fora do corpo, como o aço reflete a luz do sol. Perceba como o fio é perfeito. Fabricada em Solingen, Alemanha..., centro de cutelaria desde o século XIV. Aqui, em baixo relevo, está a suástica...
- Realmente, é uma bela peça! – CV também é um admirador das coisas de bom gosto.
- Mas, mudando um pouco o foco da questão, tu não achas que a corcunda desse cidadão não é um cepo apropriado para essa magnífica arma branca?
SR volta sua atenção para a vítima.
- Quem era você antes de enfiarem essa jóia em sua corcunda, meu amigo?

Com calma, SR vasculha os bolsos e depois por dentro das roupas do morto, usando luvas e cuidando para não alterar a cena do crime. Encontra uma carteira sobre a bexiga, dentro da cueca.
- Vamos ver... Aqui tem uma conta dobrada..., conta de luz. Nosso amigo é o Sr. Aderval Cavalcanti.
- Esta é uma carteira de deficiente físico..., ele era corcunda..., o que nos parece óbvio.
- Corcundas são pessoas solitárias, SR.
- São CV... Caraca! Olhe para ele e diga-me quantos anos ele tinha.
- Difícil..., entrando nos sessenta anos.
- Trinta e sete!
CV pega a carteirinha nas mãos e faz questão de conferir. Fica a olhar para ela durante alguns instantes. Sobe o lábio inferior pressionando para cima o superior, e levanta as sobrancelhas, ligeiramente triste.
- Não te parece uma maldição, SR, vir para o mundo em uma condição tão diferente? Imagine as dificuldades, as humilhações...
- Acho que é uma sina realmente, CV.
- Por isso que acredito em alma, SR. Vejo uma vida de provações como uma etapa de penitência, de amadurecimento, nas tantas etapas de purificação da alma, na existência - talvez - infinita, do espírito.
- Talvez seja apenas uma punição, CV.
SR tem uma medalhinha de Santa Paula colada na coronha do seu M-16. Presente de CV. A Santa já o salvou de um balaço no peito, e, em retribuição, a beija sempre que, por força da profissão, precisa meter um balaço no peito, ou na cabeça de alguém. É o máximo de religiosidade que ele pratica. SR é materialista.

- A perícia está chegando para cuidar do cadáver, SR. Vamos fazer as anotações.
O corpo está na calçada do Parque Trianon, descendo a Alameda Casa Branca, a partir da Avenida Paulista, distante uns cinco metros da esquina.
CV saca a caderneta e SR dita o registro da cena do crime:
- A vítima é o Sr. Aderval Cavalcanti, brasileiro, solteiro, 37 anos, morador da Rua do Trianon, número 606 apartamento 66. Morreu entre quatro e seis horas, a ser confirmado pela Polícia Técnica, vítima de esfaqueamento. Foi atingido na parte de baixo da sua corcunda por uma baioneta de Fuzil Mauser, marca Solingen, fabricada em 1938, que penetrou aproximadamente 20 centímetros em direção ao seu tórax. A quantidade de sangue no local indica a lâmina ter cortado uma artéria ou atingido o coração. A vítima tem as mãos fortemente fechadas; traja sapatos azuis, estilo mocassim, com uma correntinha e um pingente e dourado, calça azul escura com listra dourada ao longo das pernas, do lado de fora. Usa jaqueta igualmente azul, do mesmo tecido da calça, enfeitada com medalhas e dragonas, como..., não sei definir...
- A mim me parece um mestre de cerimônias! – CV lembrou-se de um circo que viu quando era criança. Ficou assustadíssimo com os anões, vestidos de fraque. Um primo um pouco mais velho disse-lhe que eles eram duendes do mal.
- Não sei CV. Vou virar o corpo um pouco mais..., assim... Tem um emblema no bolso da jaqueta. Parece um brasão de hotel..., deixa ver... Hotel..., caraca, é alemão..., não ria do meu sotaque: “Schlosshotel Lerbach”. Algo como “Hotel do Castelo Lerbach”.
- Seria sotaque se tu falasses alemão!
CV coloca a caneta marcando a página na caderneta e a entrega a SR.
- Anote aqui onde eu marquei com um “x”.

Horas depois, na Central, entregam os relatórios e fazem uma reunião com o Capitão, que ouve atentamente a narrativa dos dois. Ao final, ele faz uma ligação e diz algo como “confirmando qualquer coisa”. Depois se dirige aos dois policiais.
- Cabo Valdimir e Soldado Rubis. Ambos prestaram um grande serviço para a comunidade no último ano. Poucos policiais têm um registro de ocorrências com a quantidade de ações importantes com a de vocês.
Retira de um envelope uma carta que desdobra e coloca sobre a mesa.
- Podem olhar! É de uma menina agradecendo por vocês terem tirado o gato dela de cima da árvore.
CV, sério, estica os olhos e olha para a carta com estudada indiferença.
SR nota os coraçõezinhos cor-de-rosa e uma decoraçãozinha feita com algodão. Ambos sorriem protocolarmente.
- É importante que as pessoas saibam que nosso trabalho é apoiar a comunidade, e ações como essa, na sua simplicidade, são parte importante desse processo. Mas..., não os trouxe aqui apenas para mostrar isso... Por sinal, vai para o arquivo da Corporação..., meus parabéns.
O Capitão pigarreia, denunciando que seu vício de quase quarenta anos já começou a matá-lo há pelo menos dois.
- Como os senhores relataram, uma pessoa, corcunda, foi encontrada, ferida mortalmente por uma baioneta, na calçada do Parque Trianon.
- Acontece que a vítima era pessoa querida em alguns meios importantes da nossa sociedade, e a Central recebeu uma ordem direta do Gabinete do Secretário de Segurança Pública para que colocasse uma equipe exclusiva na investigação do caso.
- Quando apresentamos as opções de detetives para o crivo do Governador do Estado..., para nossa surpresa, confesso..., recebemos não só como sugestão, mas quase como uma ordem direta, a indicação dos seus nomes para responsáveis pela investigação.

SR sabia que se tornaria detetive um dia. Mas esse dia chegou inesperadamente, e ele só consegue pensar nas roupas para compor seu guarda-roupa de trabalho. Pensando bem, já estava na hora de dar um tempo no uniforme.
CV imediatamente se dá conta que essa indicação só aconteceu por causa do episódio com o gringo, meses atrás. Quem sabe, mesmo não dando o braço a torcer, o pessoal da Secretaria da Segurança Pública percebeu a perspicácia e a coragem diferenciadas dele e do seu parceiro. Ou, seria só uma punição, como poderia dizer, com muita propriedade, SR.
Ambos saem rapidamente de seus pensamentos e manifestam sua satisfação com a oportunidade. Estão surpresos e felizes. Só não podem se expressar abertamente ali.
- Não vejam isso como uma promoção, senhores. – alerta o Capitão. – Pois não é. É apenas uma condição especial que pode, dependendo dos resultados, colocá-los em uma situação melhor na Corporação. Muita gente vai estar de olho em vocês. Tratem de tudo com muito cuidado. Vocês só falam comigo. Serei sempre o primeiro a saber de qualquer coisa, e nada acontece sem a minha palavra final. Entendido?
Os policiais acenam positivamente com a cabeça.
- Devolvam os uniformes na rouparia. Passem na minha secretária e peguem as normas para as roupas à paisana. As armas podem ser as mesmas. Quer dizer, seu fuzil Soldado Rubis, só poderá ser utilizado com a minha autorização.
- Os distintivos são os antigos. Coloquem junto com eles esse documento, que os autoriza para a operação..., aqui, uma cópia para cada. O material coletado na cena do crime está no Instituto Médico Legal, e de lá deve seguir para a Polícia Técnica. Apresentem-se no IML amanhã de manhã. Acho que é só isso...
CV e SR entendem a deixa e levantam-se respeitosamente. CV sente uma ponta de angústia quando pensa que a novidade pode estar custando a companhia de uma velha amiga.
- Capitão, se me permite a pergunta, o que acontecerá com nossa viatura?
- A viatura de vocês será remodelada para o serviço. Vocês a terão de volta em breve. Boa sorte rapazes!
Os dois policiais fazem continência e deixam a sala do Capitão. Andam calmamente pelos corredores, controlando o desejo de correr e gritar para expulsar o ar do peito, purificado pela felicidade que lhes acometeu.
Fora do prédio, olham um para o outro. Olhos arregalados, sorriso escancarado.
- Tu acreditas nisso SR? Somos detetives! Em experiência, é lógico, mas somos detetives, tu e eu! Como Popeye e Cloudy, o Riggs e o Murtaugh. Nossa SR, nem consigo acreditar! O quê vamos fazer?
- Vamos às compras CV!

No dia seguinte, pontualmente às nove da manhã, CV e SR chegam ao Instituto Médico Legal.
CV veste terno preto, camisa branca, cinto e sapatos pretos. A gravata é de seda, azul escura, lisa. Leva a Beretta no coldre, abaixo do braço esquerdo.
SR está de terno azul marinho, camisa amarela bem clarinha, cinto e sapatos pretos. A gravata é cor de creme, decorada com losangos em suaves tons de vermelho. Carrega sua Walther PPK em um coldre preso no cinto, bem no meio das costas.
Estão um pouco ansiosos no primeiro dia na nova função. Porém, sentem-se bem em suas roupas novas, de caimento perfeito.
- Não gosto de ficar andando de táxi, CV. Quando a viatura será devolvida?
- Só amanhã SR!
São recebidos por um funcionário que pede suas identificações e estranha não serem detetives, mas não liga. Pede que o acompanhe e os leva até onde está o corpo. Chegando lá, o legista os cumprimenta formalmente; depois, retira o lençol que cobre o cadáver, e o expõe sob uma forte luz fluorescente: nu, esbranquiçado, lembrando um estranho, feio e encurvado boneco de cera.
- A vítima morreu quase instantaneamente, quando a ponta da lâmina cortou a artéria aorta.
Pega de dentro de uma caixa de papelão, sobre uma mesa auxiliar, um saco plástico de onde tira a baioneta, quase toda suja de sangue, e chama a atenção para ela.
- Como os senhores podem ver, apesar de ser uma peça antiga, está praticamente nova. Não há dentes no fio nem riscos na lâmina.
- É uma peça magnífica! – exclama SR.
- Realmente! – concorda o legista. – É um item de colecionador.
- Digitais?
- Nenhuma digital foi encontrada. O autor do crime usava luvas. Nas reentrâncias do cabo da arma encontramos resíduos de pelica.
“Mais um apaixonado por armas brancas!”, conclui CV, que quer saber mais sobre o corcunda.
- A vítima ingeriu alguma coisa, ou portava algo que pode ser relevante?
- Eu já vou chegar lá! – responde o legista, acostumado com a pressa de investigadores iniciantes. Calmamente, coloca a baioneta de volta em seu invólucro, de onde sairá poucas vezes durante a investigação e o provável processo, para, depois, ficar renegada ao esquecimento. Triste fim para uma arma tão magnificamente forjada, coadjuvante de grandiosas paradas militares em um passado não muito distante.
- O conteúdo estomacal da vítima indica consumo de uísque, de muito boa qualidade, talvez de dezoito anos de idade. Havia também resíduos de amendoim, de castanha do Pará, castanha de caju, de macadâmia, de uvas passas e pistache.
- A roupa da vítima é um uniforme legítimo de porteiro de hotel. Não parece muito velho. Mas é de um número maior do que ela usaria. As pernas da calça e as mangas da jaqueta estavam dobradas para dentro. Na mão direita, bem amassado dentro dela, a vítima segurava este pedaço de tecido.
Sem pedir licença, CV pega das mãos do legista o pedaço de renda preta de uns quinze centímetros de comprimento e uma polegada de largura. Estica-a com ambas as mãos e a coloca na frente dos olhos, contra a luz.
- Parece uma renda de lingerie. Vê-se que se descosturou em quase toda a extensão, e rasgou um pouco na ponta, indicando ter sido arrancada bruscamente. Tu percebes esse detalhe SR?
Antes de SR responder, o legista acrescenta mais um fato.
- A vítima manteve relações sexuais pelo menos duas horas antes de morrer. Havia vários pêlos pubianos femininos misturados aos seus, e sinais de ejaculação recente.
- Pelo menos estava fazendo algo interessante! – conclui SR. – A baioneta teria sido então uma grande surpresa, não acha CV?
- Ou uma grande punição, SR! Algo mais além do pedaço de tecido?
O legista balança a cabeça negativamente, pega o pedaço de renda da mão de CV e o coloca, junto com o saco plástico da baioneta, de volta na caixa de papelão.
- Nada! Aproveitando, vocês poderiam levar o laudo da autópsia e a caixa com as evidências para a Central?
- Perfeitamente!
- Um de vocês, por favor, assine aqui.

Às dez e meia da manhã CV e SR tocam a campainha do apartamento 44, da Sra. Anabela, síndica do condomínio do prédio onde o Sr. Aderval residia. Um prédio luxuoso, de um apartamento por andar, muito bem localizado, próximo a Avenida Paulista.
- Bom dia! Sou o Cabo Valdimir e este é meu parceiro, Soldado Rubis.
- Bom dia! – uma simpática senhora, muito bem vestida, segurando um poodle branco no colo, responde. – Por favor, entrem. Não liguem para a Fifi, ela não morde.
CV e SR acomodam-se no confortável sofá da sala. A cachorrinha, vestida com blusinha cor-de-rosa, cheira os pés deles e depois deita ao lado da dona, e fica a observá-los atentamente, com os olhinhos abertos, as orelhas levantadas e a língua para fora. Uma empregada coloca uma bandeja com água e café sobre uma mesa de centro. Eles agradecem.
A Sra. Anabela pede que se sirvam e fiquem a vontade, e enquanto eles bebem um copo de água, começa a falar sobre o falecido, sem esperar ser questionada.
- Estou chocada com o que aconteceu. É uma tragédia! Ele não era meu amigo, éramos apenas vizinhos. O Sr. Aderval não era uma pessoa muito sociável. Praticamente não tinha amigos aqui no prédio. Talvez devido à sua condição, coitado. Mas, sempre que encontrava alguém nos elevadores, ou nas raras reuniões de condomínio em que participava, tratava a todos com muita cordialidade e educação. A mim, principalmente. Nenhum funcionário tinha qualquer queixa em relação a ele. Ele trabalhava em casa, com computadores. Sempre que surgia alguma novidade tecnológica, logo em seguida chegava uma entrega no 66. Foi o primeiro a ter Internet aqui no prédio, quando eu nem sabia o que era isso. Ele...
CV observa em silêncio. Aos pés do sofá defronte a eles, Fifi parece fazer as mesmas caras e bocas que sua dona faz.
SR aguarda uma deixa e, polidamente, interrompe a fluente narrativa.
- Me desculpe por interrompê-la, Sra. Anabela...
- Pois não!
- Gostaria de destacar o que a senhora disse sobre ele não ter amigos aqui no prédio.
- Sim, foi o que eu disse. Ele só tinha conhecidos aqui.
- E ele recebia visitas, além das entregas que a senhora mencionou?
- Não que eu saiba. As visitas ficam registradas na portaria e eu saberia..., pois vejo a relação das visitas..., faz parte do trabalho do síndico...
- Eu entendo. Ele viajava bastante?
- Sim..., ele viajava bastante sim, praticamente duas a três vezes por ano. Deixava cheques pré-datados para pagar o condomínio nas suas ausências. Quando voltava, acertava alguma diferença que ficasse.
- Ele alguma vez organizou algum encontro com amigos?
- Não! Nunca houve qualquer festa no 66.
- E ele já recebeu a visita de alguma mulher, uma amiga ou namorada?
- Nunca... Se me permite a sinceridade, ele era muito feio! Até metia um pouco de medo nas pessoas. Sei por que minhas amigas e suas empregadas comentavam. Se ele tinha encontros com mulheres, não o fazia aqui no prédio.
- Desculpe-me, não quis ser inconveniente.
- Fique tranqüilo, senhor...
- Rubis!
- Fique tranqüilo senhor Rubis, são perguntas necessárias. Eu, e tenho certeza de que falo pelos moradores e funcionários do condomínio, quero que os responsáveis por isso sejam punidos.
- Com certeza serão identificados, presos, processados e punidos, Sra. Anabela!
CV, até então calado, entra na conversa.
- Como síndica do condomínio, a senhora tem a chave reserva do apartamento do Sr. Aderval, não estou certo?
A Sra. Anabela perde um pouco a pose, e Fifi, sua cachorrinha, coloca a cabeça entre as patinhas, como se quisesse escondê-la.
- Veja bem, senhor..., senhor...
- Valdimir!
- Veja, senhor Valdimir, que coincidência. Anteontem pela manhã o Sr. Aderval pediu-me minha cópia da sua chave, dizendo que não podia entrar em casa, pois havia perdido a cópia dele, indo ou voltando da padaria. Prometeu-me fazer uma nova cópia e entregar-me a noite, mas, depois disso, como os senhores sabem, ele não voltou para casa.
Depois de mais algumas perguntas relacionadas ao funcionamento do prédio e aos seus funcionários, e da promessa da Sr. Anabela em providenciar uma nova chave do apartamento 66, CV e SR agradecem e despedem-se.

Na portaria, param para conversar com o porteiro, um crioulo alto e forte, na casa dos cinqüenta anos de idade, que tem seu nome, Heráclito, escrito no crachá.
Mostram seus distintivos e sentam-se nas poltronas em frente ao balcão da portaria.
- O que posso fazer pelos senhores? – o porteiro mostra-se solícito.
- Tu poderias falar a respeito do Sr. Aderval?
- Claro, o falecido Sr. Aderval. Antes, se me permite perguntar, o senhor é do sul?
- Sou, meu sotaque me denuncia. Mas, não vamos falar de mim, e sim do antigo morador do 66. Pode ser?
- Claro! O que os senhores querem saber?
- Qualquer coisa que tu disseres pode nos ser útil. Para começar, ele tinha alguma atividade ou atitude que chamasse a atenção?
O porteiro sorri. O Sr. Aderval sempre chamou sua atenção, com sua aparência um tanto grotesca, e suas atitudes sempre tão adequadas, bem colocadas, convencionais.
- Vou falar uma coisa para vocês, senhores, o Sr. Aderval era um homem acima de qualquer suspeita aqui no prédio. Trabalho aqui há doze anos e nunca vi ou ouvi nada de ruim a respeito dele.
- Tu achas que alguém pode ser assim, acima de qualquer suspeita?
- Não podemos generalizar, é claro, o senhor tem razão, mas, neste caso, aqui no prédio, ele era!
A ênfase chama a atenção de CV e SR, que dialogam rapidamente com o olhar. CV se manifesta.
- E fora do prédio, tu sabes de alguma coisa diferente?
O porteiro hesita por alguns segundos, depois sai de trás do balcão e aproxima-se dos policiais, ficando em pé próximo a eles.
A porta do elevador social se abre e uma moradora passa por eles apressada. Após ela sair e a bela porta de vidro do prédio se fechar, ele diz, falando um pouco mais baixo, com o cuidado de estar sendo ouvido somente pelos policiais:
- Uma vez, não faz muito tempo, eu vi o Sr. Aderval descer de um carro e entrar no prédio vestindo uma fantasia.
- Fantasia? Tu sabes de quê?
- Não sei exatamente..., a luz da entrada não é muito forte..., estava ventando..., ele usava uma cartola e uma capa. Quando começou a subir as escadas antes de chegar à porta, o vento levantou a capa e pude ver um tipo de fraque, decorado com cartas de baralho..., e no pescoço ele trazia pendurado um relógio grande, redondo, que balançava com o andar desengonçado dele. Mas ele se cobriu com a capa e tirou a cartola assim que entrou no prédio. Falou-me “boa noite” e subiu.
- É tarde..., é muito tarde. – murmura SR.
- Estamos atrasados para o compromisso com a Catherine? – questiona CV.
- Depois explico! Obrigado pela colaboração senhor Heráclito! Se precisarmos de mais alguma coisa, voltaremos! – SR levanta-se e dirige-se para a porta. O porteiro se despede.
- Sempre à disposição, senhores!
CV segue SR, com a pulga que vive atrás da sua orelha desperta pela curiosidade.

Na hora do almoço, encontram-se com Catherine no centro, em um restaurante vegetariano próximo da Clínica onde ela faria mais uma consulta de pré-natal.
- Como estão lindos os meus queridos! – é a primeira vez que ela os vê trabalhando à paisana.
CV e SR ficam meio sem jeito com o elogio, e também com os olhares das outras mulheres em volta, atentas aos dois rapazes bonitos e bem vestidos.
– E então, como estão as investigações?
- No começo! – responde SR. – Ainda estamos juntando as peças.
- Como está o bebê?
- Está tudo bem com ele CV, obrigada! Está crescendo normalmente..., graças a vocês, meus amigos!
- Tu não queres mesmo saber o sexo?
- Ainda não sei..., gostaria que fosse surpresa..., tanto faz para mim..., mas, me contem..., que lance bizarro esse de um corcunda morto com uma baioneta!
- Tu estejas à vontade para contar, SR! Vou pegar suco de frutas para nós.
- Então Catherine..., temos um corcunda vestido com um uniforme de porteiro de um hotel alemão, morto com uma baioneta cerimonial nazista, da segunda guerra – linda de morrer, você tinha que ver!
- Literalmente! – ela acrescenta. SR continua.
- No prédio onde morava, a síndica do condomínio falou sem parar a respeito dele, como se tivesse ensaiado antes o que dizer. Quando CV perguntou sobre as chaves do apartamento onde ele morava, ela desconversou. Mas, prometeu conseguir uma cópia nova até amanhã. O porteiro do prédio disse, muito em off, que um dia ele chegou fantasiado...
- Fantasiado?
- É..., fantasiado com um fraque decorado com cartas de baralho, uma cartola, e um relógio redondo pendurado no pescoço.
- Estou atrasado! Estou atrasado! – ela exclama abrindo um sorriso, no momento em que CV volta para a mesa.
- De novo essa história de estar atrasado! Vocês me contem – agora - o que isso quer dizer!
- É que você não leu “Alice no País das Maravilhas”, seu bobo. – explica-lhe SR.
- Tu também não leste todos os livros!
- Calma meninos..., eu explico. - Catherine intervém. - O fraque e a cartola caracterizam o “Chapeleiro Louco”, que achava que sempre era hora do chá, e o relógio era carregado pelo “Coelho Branco”,que dizia o tempo todo que estava atrasado; ambos são personagens da história de Alice.
- Isso quer dizer que, talvez, nosso corcunda gostasse de se fantasiar. – conclui SR. - Acrescentando, na noite em que morreu teve momentos íntimos com alguém. Apresentava sinais de relação sexual recente, e estava cheio de uísque, amendoins, pistache e coisas do tipo.
- E, na mão direita, ele segurava isto!
CV mostra para Catherine o pedaço de renda preta encontrado na mão do morto.
- Você estava com isso no bolso o tempo todo CV?
- Trouxe para quem entende do assunto SR, tu não achas uma boa idéia?
Catherine analisa a renda preta com cuidado.
- É de boa qualidade..., parece renda portuguesa. Acho que poderia ser aquela renda usada em espartilhos, logo acima dos seios. Mas, usada naqueles modelos mais antigos..., hoje em dia há espartilhos de vários estilos.
Ela percebe que a costura soltou em quase toda a extensão.
- Vejam aqui que interessante. Essa renda não estava bem costurada. Foi presa com um ponto mais firme na ponta. Isso não aconteceria com um espartilho de qualidade. Talvez fosse só uma peça de fantasia, ou um espartilho estilizado.
- Será que precisaremos investigar as festas a fantasia CV?
- Não sei se seria o caso, SR. As festas têm listas de convidados, e todos sabem quem é quem...
Catherine lembra de algo que viu na televisão.
- Há uns dias atrás, eu estava ajudando sua mãe com o almoço, CV, e vi no jornal da tarde que haveria um festival de Cosplay na cidade.
- Cosplay? – CV e SR perguntam ao mesmo tempo.
- Cosplay meus queridos! É muito mais do que uma festa a fantasia. Vou explicar para vocês. Mas primeiro vou comer. Essa coisinha linda que carrego aqui dentro está com fome e reclamando.

Continua no episódio "O Clã da Aranha de Veludo - Dupla Dinâmica "

3 comentários:

~*Rebeca e Jota Cê *~ disse...

O Néctar da Flor oferece um selo DIGA NÃO AO PLÁGIO! Somos originas, porque somos únicos. Cada ser um humano tem uma emoção individual. Por mais que as palavras e os pensamentos sejam parecidos, não temos o direito de pegar algo de alguém e dizer que é nosso. Não podemos trocar palavras e rasurar o sentir do próximo. Encontramos inspiração em alguém, na natureza, na vida, mas não temos o direito de copiar sentimentos. Inspiração é uma coisa, xerocar palavras alheias é outra.



Beijos jogados no ar, sempre!



[para pegar o selo clique na imagem]



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Enio Luiz Vedovello disse...

Bastante interessante. Gostei de ver que a Catherine veio mesmo para ficar, acredito que seja uma personagem com potencial para crescer nas histórias de CV e SR.
Também achei legal o cosplay adotado pelo corcunda ser uma mistura de Chapeleiro Louco e Coelho Branco, e não o óbvio Quasímodo.

Mary West disse...

Quero logo a continuação pq achei o final bemmmmmmmmmmmmmmmmm interessantes mesmo.